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GOSTAS DE HISTÓRIA?

Apontamentos e reflexões sobre temas históricos do passado ao presente...

GOSTAS DE HISTÓRIA?

Apontamentos e reflexões sobre temas históricos do passado ao presente...

"Tudo se ilumina", de Jonathan Safran Foer

11.03.12

 

'Tudo se ilumina', de J. S. Foer, é o que não se espera de um livro sobre o Holocausto - leve, divertido, inventivo e moderno. Na verdade, só é possível perceber que esse é o tema central do romance quando já se está perto do seu final. O jovem escritor é judeu e sempre quis saber detalhes da história de seu avô, um ucraniano que teve toda a sua família assassinada pelos nazistas e só escapou da morte graças à ajuda de uma certa Augustine, que o teria escondido dos alemães. Obcecado pela origem de sua família, o rapaz foi à Ucrânia tentar descobrir o paradeiro daquela mulher. Ele não tinha informação alguma para lhe servir de guia, sabia apenas que seu avô era de Trachimbrod, uma pequena aldeia judaica. Fora isso, ele contava com uma fotografia antiga que supostamente mostrava Augustine e seus parentes. A ideia de Safran Foer era voltar da Ucrânia e escrever um livro de não-ficção sobre seu avô. Entretanto, a viagem não lhe rendeu as respostas que ele desejava. Foi quando ele teve a ideia de misturar ficção e realidade num único livro, preenchendo as lacunas de sua viagem e da história de sua família com fatos inventados. O resultado é 'Tudo se ilumina', um romance construído sobre três narrativas completamente diferentes, que seguem paralelas e entremeadas. Alguns capítulos mostram Jonathan Safran Foer, personagem fictício homónimo do autor, em sua viagem à Ucrânia em busca de Augustine. Outros capítulos são páginas do livro de não-ficção escrito pelo personagem, contando a história de sua família desde o nascimento da aldeia Trachimbrod, no século XVII, até sua viagem de pesquisa ao local. A terceira narrativa é composta por cartas de Alexander Perchov, em que ele comenta o que já leu do tal livro, dá dicas ao autor e relembra os momentos que passaram juntos.

Fonte: O Livreiro 

Ler aqui outra opinião sobre o livro.

Filme "Everything is illuminated", de Liev Schreiber

11.03.12

 O filme Everything Is Illuminated ("Está tudo iluminado" ou, na versão brasileira "Uma vida iluminada"), realizado por Liev Schreiber, em 2005, é baseado no romance "Tudo se ilumina", que aborda o tema do Holocausto, na Ucrânia ocupada pelos nazis durante a 2.ª guerra mundial.

Trancrevemos a excelente análise de Passado/Presente sobre este filme:

"Everything is Illuminated é um filme que quase não espanta. Simples, metódico, colorido. O espanto vem depois, no fim e apenas quando nos apercebemos que todas as respostas ficam dadas sem ter sido necessário fazer-lhe as perguntas. Além da banda-sonora, étnica, folclórica e meditativa, assinada por Paul Cantelon, autor de bandas-sonoras de filmes como Kill your Darlings (2006) ou Issaquena (2002), é o desenraizamento dos alicerces que presidem à construção da matéria romanesca, o pressuposto de onde se parte que acaba por surpreender. O enredo, nada complexo mas eficaz, intenso e extraordinário, baseado no romance de Jonathan Safran Foer com o mesmo nome, resulta numa performance de loucos disfarçados, afoitos e incendiários do próprio destino porque inconscientemente comprometidos com a regulação do papel da memória nas respectivas vidas.

 O contexto histórico emergente é o do rescaldo de uma Segunda Guerra Mundial perspectivada essencialmente a partir daquela que foi uma das suas mais complexas e discutíveis causas propulsoras: a mitologia racista dos judeus enquanto raça inferior e perniciosa. Tributário portanto da longa história do anti-semitismo na sua vertente mais extrema e hedionda, Everything is Illuminated entretém-se depois, ou entretanto, num enquadramento espacial que não acontece ao acaso porque sincronizado com o que acima ficou exposto, que se transcende e se substancializa numa Ucrânia que se perfila através de edifícios decrépitos e abandonados, ruas vagamente vazias, silêncios e espaços preenchidos pela incontornável memória de uma guerra ainda latente.

 Apesar, assim, do enredo se oferecer essencialmente ao meio milhão de judeus ucranianos dizimados durante a ocupação alemã, trata-se igualmente de reaver, explicando, e através da restauração de determinadas memórias entretanto extraviadas, o presente de um país gravemente afectado pela desordem do passado. No entanto, e em simultâneo, a recuperação da Segunda Guerra Mundial conflui maquinalmente na evocação do Holocausto, seu cemitério e tentativa de esquecimento. A singularidade, a firmeza e a habilidade do argumento residirão assim na perspectiva através da qual são filtradas todas as premissas e que é a de que a tentativa gorada, porque contrafeita e ilegítima, contém em si o efeito perverso do reforço contínuo e acrescido. Esta mesma tese de envolvimento programático entre passado e presente materializar-se-á, além de tudo, no enredo propriamente dito, constituindo uma espécie de eco do contexto assinalado pelo ambiente em que se movem as personagens. Senão vejamos.

 Liev Schreiber, o realizador e argumentista deste filme de 2005, assina a história de Jonathan Safran Foer, personagem interpretada por Elijah Wood, judeu, «coleccionador de coisas», isto é, de objectos vulgares (que deslocados do seu contexto comum, deixam de o ser), e que parte para a Ucrânia à procura de soluções para as incertezas que tem relativamente ao passado da sua família. Augustine e Trachimbrod constituem as únicas pistas de que o protagonista dispõe e o ponto de partida através do qual procurará as respostas que lhe são exigidas por uma imaginação curiosa e atarantada. À procura portanto do seu passado e da história da sua vida, e mais concretamente da rapariga que salvou a vida do seu avô durante a Segunda Guerra Mundial, Jonathan conta com a ajuda da Odessa Heritage Tour, empresa contratada pelo próprio e especialista na reconstituição das origens dos judeus que perderam o rasto das suas famílias durante a guerra. A empresa é toda ela constituída por elementos da família Perchov, e mais concretamente pelo avô, um faz-de-conta-que-é-cego, delirante e em pleno processo de ruptura com tudo e todos os que o rodeiam mas, acima de tudo, consigo próprio; o neto, o tradutor e um fã devoto do american way of life, e finalmente o cão, mentalmente perturbado, de seu nome Sammy Davis Júnior Jr., o guia do avô e, afinal, de toda a companhia.

 A jornada pelo coração da Ucrânia, a pretexto de encontrar Augustine e Trachimbrod, acabará, no entanto, por se transformar num exercício de catarse provocado pelos sucessivos reencontros com tempos, espaços e memoriais metafóricos que cada uma das personagens acabará por viver. Além disso, a viagem constituirá uma espécie de processo acusador de raízes, espelho refractário de uma memória insidiosamente marginalizada pelos mais diversos motivos, situação que encontrará no avô o seu exemplo mais paradigmático. No caso de Jonathan, o encontro com a irmã de Augustine, única sobrevivente da família, e o confronto com a dissolução da intriga permitirá a recuperação de uma identidade até aí subsidiária de um imaginário hesitante, ancorado numa necessidade paradoxal de recolher e reunir objectos (batatas, areia de um rio, etc.), uma obsessão que acusa a necessidade e a tentativa de gerar e perpetuar memórias e momentos irreversivelmente assimilados por um presente urgente não reconciliado com o passado.

 No que ao avô Perchov diz respeito, afinal muito mais do que mero motorista da carripana da Odessa Heritage Tours, a jornada acabará por converter-se na reconstituição de um pungente enredo que é o da história das suas próprias origens. A recuperação sucessiva de alguns lugares, trilhos até aí camuflados silenciosamente sob o signo do pudor e de uma auto-mortificação devassa, acaba por se transformar no restabelecimento espontâneo de um passado voluntariamente enterrado e menosprezado. Afinal, a hipersensibilidade e o desprezo declarado que vota aos judeus desde o início do filme mais não é do que um suspeito mecanismo de auto-protecção e de recusa de uma identidade que é, afinal e dolorosamente, a sua. Acto contínuo, para Alexander Perchov, o neto, a viagem constituirá também assim uma oportunidade de reconciliação, ainda que em abstracto, com o avô com quem até então mantinha uma relação de deriva e desajustamento motivado pela ausência de identidade do próprio.

 Porque em articulação permanente com as motivações de raiz, o alcance e a profundidade das questões em causa acabarão por extravasar o âmbito restrito das personagens. O contexto a partir do qual emerge cada uma destas narrativas pessoais impõe-se então como pano de fundo mas sobretudo como provimento da matéria narrada, através do que se convoca a recuperação da memória histórica de um país ainda em estado de comoção, perplexo e subvertido pelos efeitos devastadores de uma guerra absurda.

 Muito mais do que mero entretenimento, portanto, embora também o faça (como estratégia de equilíbrio num filme cuja temática seria, à partida, densa), Everything is Illuminated apresenta-se assim como advertência em andamento, corolário permanente e depósito de um conjunto de ponderações axiais, estruturantes e, por isso, sustento e antecipação de toda a acção fílmica. Entre elas: a exploração excêntrica de uma simbologia da viagem como destino metafórico no tempo e no espaço, o passado e a memória como entreposto gerador de identidade e a imposição arrebatada mas consequente de uma concepção do presente como compromisso libertador encomendado pelo passado.

 * Monumento erguido em memória dos 1024 cidadãos mortos pelas mãos do nazismo alemão em 18 de Março de 1942 cujo nome é inspirado na pequena aldeia judaica de Trochenbrod, outrora situada perto de Lutsk, na Ucrânia ocidental, e completamente destruída pelos nazis em 1942."