Apontamentos e reflexões sobre temas históricos do passado ao presente...

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Mar 12

 Formado em 1968 na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Recebe uma bolsa de investigação da parte da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1971 e 1974 e realiza uma pós-graduação no Royal College of Art, em Londres. Neste período o artista rebebeu o diploma MaRCA e os Prémios Sir Alan Lane e Jonh Minton. O seu trabalho encontra-se representado em diversas coleções públicas e privadas na Europa e nos Estados Unidos da América.
Em 1986 recebe o prémio telegráfico 'Homeostética' e em 2007 foi galardoado com o Prémio EDP, o mais proeminente prémio português para um artista em atividade.

 

A Vitória de Marracuene, 1973. Desenho,Tinta-da-china e Aguarela sobre Papel

 

Esta pintura é uma das maiores executadas em aguarela sobre papel, técnica que Eduardo Batarda aperfeiçoou nos anos em que estudou em Londres com uma bolsa da FCG (1971-1974). As aguarelas de E. Batarda são uma pesquisa dentro da própria pintura com vista a permitir a coexistência de uma elevada qualidade técnica (que é, ao mesmo tempo, ironizada), uma iconografia vernacular e um conjunto de comentários críticos sobre actualidade e arte de grande complexidade intelectual. Esta persistência na especificidade da pintura é enfatizada pela escala desta obra, que permite leituras diferentes conforme a distância a que é observada. Há um convite a uma dança de afastamento e aproximação análoga à atitude cliché com que se observam grandes obras de arte (com admiração e veneração), o que contrasta com o tipo de figuração praticada, bebida nos comics clássicos e underground, caricatural, cínica, de humor às vezes duvidoso e, em alguns momentos, pornográfica.

O título refere o combate de 1895 em Marracuene (Moçambique), no qual os soldados portugueses adoptaram a formatura em quadrado, que foi no entanto rompida mais de uma vez pelos oponentes, armados apenas com lanças. O combate trava-se no contexto de uma contenção sangrenta de revoltas dos autóctones, e há um paralelismo evidente com a guerra colonial ainda em curso à data da obra.

Em 1977 a pintura foi boicotada por estudantes universitários africanos quando exposta na Bulgária, que nela viram conotações racistas. O erro de interpretação deve-se à representação estereotipada dos africanos (recorrendo à imagem dos pickaninnies, corruptela do português «pequenino» para designar as crianças negras e depois os bonecos-tipo africanos frequentes em cartoons e publicidade, de grandes olhos e lábios grossos) com função irónica, ou seja, na verdade anti-racista e anti-colonialista. Estas personagens atacam um cubo transparente ao centro, no interior do qual estão os colonos, boçais não menos estereotipados — a «formatura em quadrado», aliás a puxar para triângulo (remetendo para a conotação religiosa), será também um epíteto pictórico de reaccionarismo. A acção passa-se num palco cujo cenário conjuga elementos abstractos reconhecíveis dos modernismos e comentados na sua utilização decorativa. Observando mais cuidadosamente verificamos que, em vez de lanças e flechas, as armas da maior parte dos nativos são pincéis e os seus escudos são paletas, o que, juntamente com outras referências da história de arte, permite entender este combate numa outra perspectiva: como um ataque das neo-vanguardas (fumadoras de maconha, caóticas, aguerridas) a um modernismo por elas visto como enquistado, oficial, obsoleto, mas sendo elas próprias dele devedoras, perpetuando, por exemplo, os primitivismos modernistas numa arte dita antropológica.

Uma legenda sobre fundo azul surge em rodapé, à maneira das que apareciam integradas nas antigas gravuras didácticas ou nas que reproduziam grandes obras da pintura, indicando o título, artista, localização, escola, etc.

 

Publicado pelo Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian

 

Outras oObras de Eduardo Batarda

Ver Galeria 111

publicado por Conceição Janeiro às 23:02

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